quarta-feira, 23 de maio de 2012

Quis ensinar-me o signifcado de dor trancafiando-me no sótão de sua ausência - ácida, putrefata.
Esqueceu da janela.
Mirei o mofo na parede por muito tempo e aspirei, com o auxílio de brônquios pretos, todas a podridão deste ar espesso.
Lembrei da janela. E nunca mais vivi no exílio egoísta dos seus desígnios.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Achei ser pedra aquela que habita a cavidade entre meus pulmões.
Mas não. O que habita todas as minhas cavidades é amor em estado bruto.

domingo, 6 de maio de 2012

Clausura

Dentro do claustro que a tua proteção ergueu, falta ar e sobra poeira. E peneiro um erro da volumosa massa de boas intenções: não podes me proteger de existir. Podes querer ou não, mas eis o dado: eu existo e mais do que isso, eu sou! Não quero tuas boas intenções, quero que admitas as más. Tu irás me amar de uma única maneira, ainda te digo: o farás aceitando a existência da alteridade. Proteja-me apenas daquilo que me impeça de ser o que sou, o que serei e o que sonho em vir a ser.

domingo, 29 de abril de 2012

Por covardia

Solto uma graça tola e, com o rabo de olho, tento ver se lhe fiz rir. Pergunto o que achou do café e justifico que fiz na pressa, para o caso de ter achado forte ou fraco demais. Desculpo o fato de o cigarro ser de palha, já que você gosta do de filtro, mas ofereço mesmo assim para preencher seus pulmões com quentura. Procuro-me em toda arte da qual você usufrui ou naquela que você faz. Aperto a mão dos seus amigos com convicção e converso com eles sobre o Leminski, mesmo sem vontade, para não me repararem negativamente. Durmo quando você também dorme, em solidariedade ao seu cansaço morno. Não olho as horas, porque não gostaria que pensasse que uma coisa tão fútil como o tempo, chame tanto a minha atenção assim.
Somos filhos do destino e estamos fechados ao mais leve sopro do que outrora ousamos chamar de amor. Essas são as minhas maneiras de lhe perguntar sem palavras, não sei se por covardia ou por outra maior limitação, se você me quer bem.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um teórico diz que quando falamos, é sempre para as paredes. E eu acabo achando que nossas palavras é que são as paredes em si.

sábado, 21 de abril de 2012

Ao meu lado

Ao meu lado, ele. Olho para o teto. E vejo os raios da manhã se esforçando pra luzir através da cortina crua. Ele me observa e posso ver que não compreende os círculos meditativos em que me encontro. Silêncio. Penso que estamos num jogo de apostas e que não é permitido ver as cartas do oponente. Olho para ele e volto a encarar o teto. Suspiro, ensaio falar alguma coisa, mas não vejo a menor a razão para isso. Repentinamente, sinto uma raiva surda: ele não sabe se comunicar comigo no silêncio e não o compreende. Pergunto-me o sentido de tudo isso e lembro-me da conclusão que tirei dos primeiros goles de café da manhã anterior: o sentido está na falta de sentido. Mordi o lábio, disse que ia ao banheiro, mas fiquei imóvel, como se o fato de apenas eu me pronunciar já bastasse para a ação se dar. Sinto seu pé frio abandonado junto ao meu e penso como é fundo esse vazio. Faço um carinho na sua cabeça, beijo sua testa e me levanto.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Presença

Espirais de presença farta do multiverso. Eu e os mistérios da vida estamos sintonizados na frequência da reciprocidade. Não se deve tentar achar sentido na sabedoria enigmática dos sentidos, mas apenas sentir-se.